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domingo, 8 de outubro de 2017

O Livro Selvagem

O Livro Selvagem

O Livro Selvagem me conquistou desde o primeiro capítulo. Pela capa julguei que seria uma leitura bem recreativa, rápida e divertida mesmo. Mas no primeiro capítulo me emocionei e aí eu parei... Nossa! Essa história vai ser muito boa! E foi! Mas vamos por partes.

A aquisição. Descobri esse livro na Livraria Leitura ao procurar títulos com as palavras "livro", "livraria" e "biblioteca" no título. Isso faz parte da minha pesquisa sobre o tema Biblioterapia. E no final das contas, o livro tem a ver com isso mesmo. "As bibliotecas são locais afastados onde qualquer um pode se sentir muito solitário. Que divertido seria estar em um lugar que fosse metade biblioteca, metade farmácia! Um local onde fosse possível conversar, saber o que acontece na cidade e, ao mesmo tempo, ler. Um local onde a imaginação fosse parte da realidade. Um lugar com remédios para as doenças que se curam com comprimidos e para as que se curam com livros" (pág. 182)

A leitura. Li em uma semana, à noite. Foi bem fácil de ler! Mas me exigiu um lápis marcador e post it para destacar os trechos que me chamaram bastante atenção. Frases que quero usar como epígrafes em alguns escritos ou que simplesmente não quero perder de vista porque são inspiradores. Falam da magia dos livros e do poder que eles tem em despertar os diversos tipos de leitores que existem em nós. Dá vontade de listar todas as categorias de leitor e de livros que vão aparecendo (vou fazer isso!).

"Uma biblioteca não é para ser lida por completo, mas sim para ser consultada. Os livros estão aqui para o caso de serem necessários. Li minha vida toda, mas há muitos assuntos sobre os quais não sei nada. O importante não é ter tudo na cabeça, e sim saber onde encontrar uma informação. A diferença entre um arrogante e um sábio é que o arrogante só aprecia o que já sabe, enquanto o sábio busca o que ainda não conhece". (pág. 34)

"Você acha que decidiu comprar um determinado livro, mas na verdade foi ele que se colocou ali para que você o enxergasse e se sentisse atraído. Os livros não querem ser lidos por qualquer pessoa, mas sim pelas melhores, por isso procuram seus leitores". (pág. 37)

"Há pessoas que acham que entendem um livro só porque sabem ler. Eu já disse que os livros são como espelhos: cada pessoa encontra neles aquilo que está em sua própria mente. O problema é que você só descobre que existe isso dentro de você quando lê o livro certo. Os livros são espelhos indiscretos e arriscados: fazem com que as ideias mais originais saiam da sua cabeça e trazem à tona outras novas, que você não sabia que tinha. Quando você não lê, essas ideias ficam presas dentro da sua cabeça e não servem para nada". (pág. 75)

A história. Não vou escrever mais do que aparece na contra-capa do livro por medo de estragar as surpresas da leitura, então vou só transcrever para instigar os futuros leitores:

"Juan não imaginava que as férias na casa do tio Tito seriam tão emocionantes. Afinal, como é que ele poderia aproveitar o verão ao lado de um sujeito estranho que só convivia com livros e gatos?

Assim que chegou àquele lugar que mais parecia um labirinto do que uma casa, o garoto descobriu que tinha uma missão especial: deveria encontrar O livro selvagem, uma obra que não se deixava ler, se escondendo daqueles que tentavam dominá-lo.

Por que o livro resistia à leitura? Qual seria a mensagem que trazia? E por que Juan era a pessoa certa para buscá-lo? Para responder a essas perguntas, ele vai ter de mergulhar no universo empoeirado da biblioteca do tio, povoado por livros bons, maus, "livros piratas" e "livros de sombras", que podem se movimentar pelas prateleiras e criar suas próprias histórias - histórias bem diferentes e, ao mesmo tempo, um tanto parecidas com a da vida dele".

Destaques. Da leitura eu destaco a ideia de que nós melhoramos os livros ao lermos e ao mesmo tempo nós nos melhoramos, vamos nos tornando leitores melhores. E também sobre a ideia do livro que escolhe o leitor, que se permite ou não ler. Me fez pensar de uma forma diferente e até chegar à conclusão de que já tive em minhas mãos vários "livros selvagens". Alguns eu domei outros permanecem escondidos na minha biblioteca.

Juan Villoro
O autor. Juan Villoro é mexicano, nasceu em 24 de setembro de 1956. Além de infanto juvenil, escreve novelas, contos, teatro, ensaios e crônicas. Ganhou vários prêmios! E para maiores informações, pode ser consultada a sua biografia.

A edição. O livro foi publicado em 2008, mas esta edição é de 2011, da Seguinte, "o selo jovem da Companhia das Letras". E está classificado como literatura juvenil. Mas é uma leitura que vale para qualquer idade, se a pessoa gosta desse mundo mágico dos livros e bibliotecas.



terça-feira, 26 de setembro de 2017

A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken

A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken

A gente começa a ler o livro querendo saber que biblioteca é essa. E os autores vão falando de um livro misterioso. Os dois personagens centrais são adolescentes curiosos e cheios de imaginação. Nesse percurso fica interessante ir acompanhando o processo de escrita do livro. E é envolvente! Dá para embarcar na ideia de que é uma escrita coletiva. Os dois autores conseguem fazer isso muito bem! 

É divertido e informativo, sobre o processo de catalogação de livros, sobre a organização de bibliotecas e sobre essa coisa mágica que é escrever! Está divertido em apenas duas partes: 1) O livro de cartas e 2) A biblioteca. 


Fiquei pensando que alunos do Ensino Fundamental II talvez se interessem por esse tipo de leitura, uma vez que se trata de uma aventura vivida por dois adolescentes. Nesse sentido me lembrou os livros do saudoso Marcos Rey, da Série Vaga-Lume.

E fiquei pensando também na sala de aula, em uma provação para os alunos produzirem uma história a quatro mãos, assim como os personagens aqui fazem. Uma história coletiva onde cada um vai escrevendo a parte do mistério que está vivendo. E isso tudo em um livro! Ou mesmo no drive, já que dispomos de recursos tecnológicos para isso. Poderia ser um bom caminho para exercitar a produção textual e a imaginação criadora entre os alunos.

E essa aventura de escrita coletiva poderia ser instigada com perguntas como:

1. O que seria uma biblioteca mágica?
2. Você teria uma?
3. Como seria a sua biblioteca mágica?
4. Onde ela seria construída/guardada/escondida?
5. Como seria o acesso?
6. Quem teria acesso a ela?
7. Quais seriam seus segredos?
8. Quais seriam seus maiores tesouros?
9. Por que você construiria uma biblioteca mágica?
...



A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken
Autores: Jostein Gaarder e Klaus Hagerup
Edição original: 1999
Traduzido para o português: 2003
Esta é a 17ª reimpressão
Editora Companhia das Letras
180 páginas
Classificado como Literatura infantojuvenil


A Livraria Mágica de Paris

A livraria mágica de Paris

Na orelha do livro está o título "Uma história emocionante de amor, de perda e do poder dos livros". E sim, é isso mesmo. Começa falando sobre a habilidade que algumas pessoas têm em "curar" os outros com livros! Eu queria muito ter esse poder! Acho que devoro livros tentando aprender como se faz isso! Mas não é tão simples.

A obra é encantadora, leve, uma narrativa que acalma o leitor (pelo menos acalmou a mim). Eu mergulhei na vida de Monsieur Perdu, um "farmacêutico literário" (gostei disso!). Daqui a pouco já estava fascinada com o poder que ele tinha de conhecer e modificar as pessoas pelos livros. Depois já estava sensibilizada com os traumas dele. E intrigada com um mistério de separação que surge.

Com o desenrolar da trama, aparece um escritor e outros personagens igualmente ricos e a gente embarca junto numa viagem, literalmente. Porque me senti no barco-biblioteca de Perdu. Dá pra ir descobrindo um pouco a rotina da cidade, das pessoas, de um cotidiano meio marginal até. E isso é interessantíssimo quando se fala de Paris, cidade cujo imaginário está cercado de riqueza.

Marquei várias passagens do livro. Li para os meus alunos algumas delas. A história me fez pensar sobre a vida, sobre as perdas e sobre a grande arte de recomeçar. Sim, é uma daquelas obras que a gente termina e fica pensando horas e horas e dias.

Indico A Livraria Mágica de Paris, para quem acha que não consegue mais amar, para quem perdeu um grande amor e ainda sofre com isso, para quem sonha em viajar para Paris, para quem sonha em viajar..

Recomendo que leia à noite, ou nas manhãs tranquilas ou no entardecer. Sempre acompanhado de uma xícara de chá ou de uma taça de vinho. Um gato no colo, talvez (para quem é amante de gatos... eles nos ajudam a compreender certos mistérios). E para aqueles que gostam de frases de efeito, prepare um marcador, um post it, um lápis para não perder trechos incríveis e que certamente merecem ser relidos para chamar a emoção de volta. A capa traduz um pouco o ritmo do livro. É assim mesmo, calmo com alguns sobressaltos, como uma viagem de barco. E ao final, pode nos vir a pergunta: Como anda o barco das nossas vidas?


A Livraria Mágica de Paris
Autora: Nina George
Publicado originalmente em 2013.
Publicado no Brasil em 2016
Editora Record
Esta edição que li já é a 7ª, de 2017
Tem 308 páginas
Está classificado como: Romance alemão

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Um livro por dia


Um livro por dia



Aquisição: 23 de abril de 2017.
Início da leitura: 30 de abril de 2017
Final da leitura: 22 de junho de 2017
Outros dados. O livro foi publicado originalmente em 2005 e esta edição da Casa da Palavra, é de 2007. Tem 318 páginas.

Aquisição
Eu encontrei esse livro enquanto fazia compras de supermercado com um amigo. Isso mesmo. Este livro estava junto com outros, organizados em uma pilha, na entrada de um supermercado, como produtos em promoção. Ficamos olhando as capas, manuseando, conferindo os preços, pensando nas necessidades ou não, até que ele me mostrou esse. Achei interessante primeiro pelo título, porque não tinha entendido o desenho no primeiro momento. A palavra "livro" na capa, já me cegou para o resto. Comprei por R$ 14,00.

Memórias resgatadas
Ao chegar em casa e começar a manusear o livro é que me dei conta de que tinha algo de familiar nesse desenho e aos poucos fui puxando memórias até desconfiar que se tratava de uma livraria pela qual eu tinha passado em 2006. Recorri às fotos de viagem e lá estava. Sim, eu tinha passado

Primeiras impressões pós-leitura
* Fiquei com vontade de abrir uma livraria.
* Adorei conhecer o George, um intelectual marxista que abriga desconhecidos.
* Vi Paris por outras lentes, diferente da "cidade luz".
* Repensei o sentido da vida.
* Se eu tivesse uma livraria, também moraria nela.
* E quando eu for novamente a Paris, vou passar na Sharespeare and Company, entrar e comprar um livro. A primeira vez, passei direto.



Livraria Shakespeare and Company. Foto: Evany Nascimento. Junho 2006.

O que a obra me fez pensar

É uma história que quebra o imaginário que temos de "Paris, a cidade luz", a capital modelo de modernidade para o mundo, a cidade dos postais e do cinema. E que bom que nos causa isso, porque precisamos enxergar as cidades como espaços de contrastes, vivos, espaços de lutas e conflitos. E isso o texto vai mostrando todo o tempo. A livraria e a vista para o rio Sena, as ruas e prédios do entorno. É como se um canto de Paris saísse dos postais e ganhasse corpo. Mas não um corpo glamouroso, mas um corpo marginal, pobre e livre, ou como dizemos em Manaus, "sem eira nem beira". 

Viver com quase nada. Isso parecia possível aos personagens do livro. E isso faz repensar a situação de posses e toda a sociedade de bens. Faz pensar o conceito de conforto e tudo que o envolve, especialmente o conforto para diferentes classes sociais. 

Em alguns momentos, parecia que eu estava na Europa medieval, vista nos filmes ou em textos de história. Mas daí, alguns indícios revelavam que o contexto era contemporâneo. 

sábado, 20 de maio de 2017

FARMÁCIA LITERÁRIA - mediação de leitura e biblioterapia

O livro - Farmácia Literária
 Há pouco tempo descobri o termo biblioterapia e fiquei interessada. Li algumas coisas na internet sobre o conceito e fiquei mais interessada ainda. Indicar livros como forma de diminuir sofrimentos! Logo pensei em potencializar as ações de mediação de leitura.
E eis que hoje, encontrei na Livraria Saraiva este livro - Farmácia Literária, das inglesas Ella Berthoud e Susan Elderkin. Primeiramente a capa me chamou a atenção. E como sempre faço com os livros antes de comprar (quando eu não conheço), li a contra capa, as orelhas e folheei para observar a estrutura (e sentir o cheiro do livro). Não pensei duas vezes. Comprei!

Em um primeiro momento de leitura exploratória posso dizer que as duas autoras organizam o livro como um glossário de A a Z, com termos como adolescência; bom senso, falta de; coceira nos dentes; divórcio; estresse; felicidade, busca de; gripe; identidade, crise de... e por aí vai. Como exposto na capa são mais de 400 livros indicados ao longo das 374 páginas. Além dos males organizados de A a Z, o livro traz epílogo, um índice de males ligados à leitura, um índice de listas e um índice de autores e livros (maravilhoso!). Para cada um dos termos elas apresentam um ou mais livros. É uma conversa em que elas retomam o "mal" (definido pela palavra/termo), apresentam o livro com uma sinopse do personagem relacionando ao "mal" apresentado e concluem com a recomendação para a "cura" do leitor. Trazem também outros verbetes relacionados. É uma escrita bem fácil, direta e divertida.
Ella e Susan.
Fonte: Página Cinco

A  proposta é a biblioterapia, pois as autoras se auto-denominam biblioterapeutas que seguem prescrevendo livros. Elas se conheceram quando estudavam literatura inglesa na Universidade de Cambridge e em 2008 montaram um serviço de biblioterapia na The School of Life.








Estou animada com a leitura e acredito que vai ampliar bastante as minhas atividades de mediação de leitura literária. Porque o próprio texto tem esse caráter de instigar a curiosidade para o livro apresentado. Já marquei várias obras que eu não conhecia e que fiquei com vontade de ler. E ao observar a capa, pensei em produzir várias garrafas com nomes de autores. Já vi alguma coisa assim como cápsulas com pequenos trechos escritos para serem retirados do frasco etiquetado como doses homeopáticas de Rubem Alves, por exemplo. Adoro coisas que me dão mais ideias assim.

Contra capa do livro - Farmácia Literária
Ao ler o livro fiquei pensando também que minha mãe queria que eu fizesse medicina. Embarquei em outros caminhos e cheguei ao doutorado, posso ser chamada de doutora. E assim, como as autoras, também ando prescrevendo livros. (mas já me deu vontade de criar um receituário... rsrs).

P.S. Quer uma segunda opinião sobre o livro, leia o Blog Página Cinco.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

SEMANA SANTA

A Última Ceia
Juan de Juanes, 1560



Esta semana, na tradição católica cristã, comemoramos a Semana Santa, um conjunto de ritos que relembram a chegada de Cristo à cidade de Jerusalém, sua Paixão, Morte e Ressurreição.

Crescida em uma família católica que reverenciava todos os rituais, lembro que quando criança, ouvia de minha avó as histórias sobre essa data. Ela determinava a nossa vida durante toda a semana que começava no Domingo de Ramos, ganhava forma na Quinta-feira Santa, tinha o seu auge dramático e introspectivo na Sexta-Feira da Paixão, passava pela inquietação do Sábado de Aleluia e transbordava de alegria no Domingo de Páscoa.

Ir à missa fazia parte dos ritos. Não comer carne também. Era a semana toda de peixe. Mas tinha o jejum. Não podíamos comer muito (eu não gostava dessa parte!). 

No Domingo de Ramos, ao voltarmos da missa, colocávamos na porta a cruz de palha (o ramo distribuído durante a celebração, com procissão que lembrava a entrada de Jesus em Jerusalém). Essa cruz nos incluía no povo escolhido e protegido por Deus. E a cruz de palha ficava na porta até se decompor. 

O restante da semana (segunda, terça e quarta) nossa rotina era marcada pela desaceleração, pela introspecção, nada de falar alto, rir, gritar, correr. Íamos parando aos poucos. E sempre cercada pelas histórias de minha avó, vinda de Tarauacá, interior do Acre. 

Na escola, até a 4ª série, ainda fazíamos coelhinhos de cartolina e ganhávamos chocolate da professora (pena que a partir da 5ª série isso se perdeu!).

Chegando a Quinta-feira Santa, não havia aula e ficávamos em casa. Era o dia em que minha mãe e tia preparavam as comidas para a sexta-feira. Sempre tinha mungunzá. Até hoje não sei qual a relação com o rito cristão, só sei que Semana Santa significava comprar milho branco e fazer mingau, com castanha ou coco (nossa! pense numa coisa gostosa!... mas não esquece que estávamos jejuando).

As comidas eram feitas pela manhã: tratar o peixe, separar a banana, preparar o mungunzá. No final da tarde, íamos à missa e à procissão onde ganhávamos os ramos para proteger nossas casas. 

Chegando na Sexta-Feira Santa, nossa! Tudo parava! Minha avó dizia que no interior, quando dava meio-dia, o horário em que Cristo havia sido crucificado (sim, ela sabia até os horários todos!), os pássaros não cantavam, nenhum bicho fazia barulho e até o rio parava! Ano após ano eu ouvia essa história e ficava encantada com a ideia de que o rio parava. E pensava, se até o rio parava, eu não poderia correr, tinha que ficar quietinha. 

Nesse dia nós nem penteávamos os cabelos (pelo menos no tempo da minha avó). Se fizéssemos qualquer coisa assim, que remetesse ao trabalho, ela logo nos chamava de Judas, e, acredite, tudo o que menos queríamos éramos ser chamados de Judas, porque ele traiu Cristo e causou-lhe todo o sofrimento. Depois eu fui entender que fazia parte da história Cristo passar por esse sofrimento, morrer para ressuscitar. Mas enquanto criança, Judas representava a traição.

Lembro que o silêncio nesse dia imperava. Logo ao acordar já sabíamos que se tratava da Sexta-feira Santa porque falávamos muito baixo. Quase não comíamos. E no final da tarde, íamos à procissão, passando por toda a Via-Sacra, que é o percurso de 14 Estações (paradas), onde íamos relembrando a caminhada de Cristo até o calvário. Agora a Via-Sacra é encenada e fica mais realista. Acompanhamos um Cristo carregando sua cruz e sendo crucificado. 

Ah, antes de irmos à missa, tinha o filme da Paixão de Cristo. Todos assistíamos. E todos choravam todas as vezes em que Cristo morria na cruz. O catecismo ajudava a memorizar as frases-chave desse momento. Cristo à beira da morte, na Cruz, olha para sua mãe Maria, que chora e para João, seu apóstolo mais novo e diz:

- Mãe, eis aí o teu filho!
- Filho, eis aí a tua mãe!

E desse momento em diante, nos consideramos filhos de Maria. Lembro de tudo isso, porque além de ter sido uma história contada por anos e anos, ter sido lida na Bíblia, relembrada nas celebrações litúrgicas, também era algo muito forte e vivido em casa. De alguma forma nós tínhamos que passar por privações e sofrer um pouco, porque esse Cristo havia sofrido muito por nós. Nossa família não tinha posses, mas os ritos de simplicidade, jejum e penitência, nos aproximavam desse Deus que também tinha sido podre e sofrido muito. Nos uníamos a ele pela pobreza e pelo sofrimento. E claro, depois, pela esperança de passar daquele sofrimento para uma vida de alegrias. A nossa Páscoa era essa esperança. 

No Sábado de Aleluia, a história que ouvíamos era a de que Judas tinha sido enforcado. E víamos alguns bonecos de pano presos em postes. Quando eu era criança, eu não via crueldade nisso. Fazia parte da história. Todos os anos ele ia trair Cristo e seria enforcado. Hoje, conhecendo outras versões, acho cruel. Cristo já sabia de tudo que ia acontecer e Judas contribuiu para os planos divinos. 

Nesse dia começávamos a brincar, mas tinha o medo de apanhar, porque na sexta, era terminantemente proibido bater em uma criança, mas no sábado... Sábado era dia dos castigos. E também era o dia em que as pessoas que tinham galinhas, precisavam ter cuidado, porque elas poderiam ser roubadas à noite. Também não entendo bem! Mas era um dia de tumulto.

E chegava o Domingo de Páscoa! Nesse dia podíamos comer mais! Era o dia de comemorar a ressurreição de Cristo! A missa era mais alegre e festiva! Muitos cantos alegres! Não lembro bem o momento em que passamos a ganhar chocolate e comemorar com ovos de Páscoa esse dia. Acho que foi quando começamos a ter um pouco mais de dinheiro.

Estudar catecismo (fazer as leituras bíblicas), me ajudaram a entender esse momento. Ler sobre outras culturas também me fez ampliar o olhar sobre esse ritual cristão. A Páscoa significa sempre uma renovação de aliança de um Deus que nos ama, que se doa e que nos convida a acreditar que podemos também fazer essa passagem de um momento de dor para um momento de alegria. Podemos superar problemas, podemos renascer sempre. 

Muito do meu otimismo e minha forma de encarar a vida vem dessas crenças e de como a minha família sempre vivenciou a tradição cristã e a incorporou no seu dia-a-dia. Cristo representa para nós, alguém que amou, sofreu, morreu e ressuscitou! E essa ressurreição comemorada no Domingo de Páscoa, simboliza essa vitória contra a dor, o sofrimento, as injustiças. 

Feliz Páscoa!

terça-feira, 4 de outubro de 2016

ASSIS a cidade de São Francisco

Cidade de Assis - Placa de identificação

A história de São Francisco de Assis é uma das mais conhecidas do cristianismo e vai além do mundo dos católicos. O homem que viveu na Idade Média e que desafiou a família deixando tudo para trás por acreditar que o Cristo, aquele que morreu na cruz, não pregava o acúmulo de riquezas e que por isso, a Igreja Católica medieval estava indo para outros caminhos. Com isso deu início a outro segmento da própria Igreja Católica, a Ordem dos Franciscanos, que pregava a humildade e a simplicidade.

Contraditório mas, igrejas dedicadas a São Francisco de Assis, no mundo todo, são as mais ricas e luxuosas. Mas esse post não vai se dedicar a essas questões. O objetivo aqui é apresentar a cidade onde nasceu e viveu Francisco de Assis, uma cidade italiana que ainda guarda toda a sua estrutura medieval e proporciona ao visitante uma incrível viagem no tempo.


A caminho de Assis
Vista da cidade de Assis

É possível chegar à Assis de carro, saindo de Roma. A estrada é muito boa e é uma paisagem com muita vegetação e poucas construções o que se tem ao longo do trajeto.

Um ponto emocionante é avistar no alto, as primeiras imagens que se tem da cidade de Assis. Pedras brancas decorando o monte.







Ao se aproximar mais é possível perceber a Igreja ou Basílica de São Francisco de Assis, com sua torre à esquerda. E a cidade de Assis, literalmente cercando o monte. Como se toda ela fosse uma grande muralha. Uma imagem que nos tira o fôlego.

Interessante pensar na imagem das cidades vistas de longe. Em Assis, uma cidade alta, pois que a vemos de baixo, da estrada, têm-se esse desenho de contorno do monte.


Portal de entrada da cidade de Assis


Ao chegar na cidade de Assis é possível avistar esse portal que dá acesso à entrada da cidade. Acima do portal tem-se um texto em latim.


Texto na entrada da cidade de Assis


















Entrada da cidade de Assis.


Esta é uma das principais entradas da cidade. Ao fundo, vê-se o portal e do lado direito o conjunto arquitetônico como um grande muro de pedra, com janelas e delicadas flores decorando.

Casas da cidade de Assis


Como a cidade foi construída em torno de um monte, as ruas e casas foram seguindo as inclinações naturais do terreno.

São construções que remontam o período medieval, feitas de pedras, com poucas janelas e ruas muito estreitas. Esse conjunto favorece uma verdadeira viagem no tempo.






Escadarias entre as casas de Assis

Entre as casas e para ligar uma rua à outra, existem muitas escadarias semelhantes a essa. Além de proporcionar a circulação das pessoas, também faz a cidade respirar.

Sem contar que é um charme a mais no imaginário de quem visita a cidade pela primeira vez. Causa a surpresa! Não sabemos o que podemos encontrar no final ou no começo da escada, entre um prédio e outro.

Quando caminhei por aqui toquei as paredes geladas de pedra e fiquei imaginando o que já teria acontecido nessa viela... quantas vidas, quantas surpresas, quantos crimes, quantos amores.

Esse espaço entre os prédios, as paredes de pedra, deixam a cidade com esse ar de cidade de outro tempo. Inevitável a sensação de paz ao se respirar ali.


Vitrine de doce em Assis





Para quem gosta de doces, a cidade também oferece vitrines cuidadosamente arrumadas, exibindo uma infinidade de pães, doces e outras guloseimas. Impossível não se encantar com o zelo com a organização dessas vitrines. Parecem espaços que eu não ousaria macular tirando um doce sequer. Eles ficam ali, parados, tentando os olhos de quem passa.









A seguir, mais imagens da cidade de Assis.


Placa de identificação do município de Assis


Exemplar de painel encontrado nas paredes nas fachadas das construções


Construções de Assis.

Fonte em uma das praças de Assis

Placa com identificação da cidade

Vista da Igreja de São Francisco de Assis


Exemplar de construções emparelhadas na cidade de Assis

Vista das construções de Assis com painéis decorativos

Igreja de São Francisco de Assis
Sou católica e tenho em São Francisco de Assis, meu santo protetor. Por que? Porque minha avó contava suas histórias. Contava dos festejos dedicados a ele em Tarauacá, interior do Acre, extremo norte do Brasil, onde ela nasceu e foi criada. E minha avó tinha um quadro com a imagem de São Francisco, com o qual aparece na primeira fotografia feita na casa recém-comprada em Manaus, no começo dos anos 1970.

Nos dias 24 e 25 de junho de 2006, tive a oportunidade de passar por Assis e ver de perto a cidade onde o Francisco das histórias da minha avó nasceu. Hoje, dia 4 de outubro de 2016, dez anos depois, eu escrevo esse post. Rememorando a viagem, rememorando o culto a Francisco de Assis e minha avó que sequer imaginou que um dia, alguém da família andaria por essas bandas.